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Me dei conta de que estava sendo observada quando senti no meu pescoço dois dedos feitos de uma textura grossa, asquerosa. Era um velho de barba rala e branca que me tocava, tirando um certo proveito, para saber se eu estava desmaiada ou até mesmo morta (?).

Assim que ele percebeu que eu já estava com os olhos abertos, perguntou-me se eu estava bem. Pombas! Era óbvio que eu não estava nada bem. Perguntei onde eu estava e ele murmurou algo que eu só entendi o final: “... tomar café?”. Chequei meus bolsos e disse que sim. O velhote me conduziu por dentro do que parecia um terminal rodoviário abandonado. Passamos por dentro do terminal e eu não fazia a mínima noção de pra onde aquele velho desejaria me levar. Nada era familiar. Foi então que, em vão, eu tentei recapitular o que havia acontecido na noite passada e como eu passara a noite em um lugar tão inóspito e fétido.

Acendi um dos meus últimos cigarros e decidi seguir o velho que entrou numa rua estreita que bifurcava no final. Um pouco antes da bifurcação o velho entrou numa casa rosa e pediu para que eu sentasse no sofá. Pouco tempo depois o velho me trouxe uma xícara de café e uns biscoitos de leite que devorei rapidamente. Sorvi o café me deliciando como se fosse a última vez que o fazia. Foi então que ele decidiu abrir a boca para me perguntar o que eu fazia da vida. Eu o disse que quase nada, era apenas uma escritora fracassada. Ele me perguntou que tipo de coisas eu escrevia. Eu respondi que tudo, principalmente histórias trágicas.

Assim que terminei, constatei que o velhote não era tão insuportável quanto pensei. Perguntei se poderia tomar um banho e ele assentiu com a cabeça. Ok. Tirei as minhas roupas, e percebi que já estavam desgastadas, liguei o chuveiro no máximo que pude, molhei meus cabelos e vi que o filho-da-puta estava me olhando pela espreita da janelinha que devia dar ao quarto dele. Soltei uns caralhos, xinguei-o de tudo que podia, me vesti, peguei minhas coisas e saí correndo da casa daquele maluco. Fiz sinal a um táxi e pedi para que me levasse ao centro o mais rápido possível.

Deviam ser umas quatro horas da tarde quando almocei num boteco de aparência meio barroca, no qual havia um homem nojento que me perguntava, com uma baba branca grudada ao canto da boca, o que eu iria comer. Pedi bife à cavalo e comi com certo nojo, mas comi.

Procurei um barzinho, assim que acabei de almoçar, para tomar algumas cervejas e quem sabe bater um papo com alguém interessante. Tomei umas cinco, seis, dez cervejas e ninguém de interessante apareceu.

Agora eu estou em uma pousada bem antiga, cheia de infiltrações e baratas passeando pelos corredores, mas não há nada que tire meu sono...

Amanhã tomo outras brejas, fumo mais alguns cigarros e quem sabe encontro o que o meu alter-ego busca: Nada!


23 de Março de 2003 .: 23:35

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"Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura." (Charles Bukowski)